Empresas terão de reparar imagem ambiental do país desgastada pelo governo, diz especialista

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Ao mesmo tempo em que o ESG (sigla em inglês para agenda ambiental, social e de governança) ganha espaço no país, principalmente no ambiente empresarial, mas sofre retrocessos entre os governos, informa Sergio Leitão, fundador e diretor-executivo do Instituto Escolhas — think tank brasileiro que se propõe a qualificar o debate sobre sustentabilidade. Ele destaca que o Brasil atualmente passa por um momento de desmonte de uma de suas principais prerrogativas do conceito de ESG: o desmonte da “governança”. De acordo com Leitão, o país vive está acabando com sua política ambiental e retrocede em 40 anos. Para ele, a imagem do Brasil já está desgastada e as empresas precisam tomar o protagonismo e assumir um papel proativo para melhorar o cenário de proteção dos recursos naturais do país. “É preciso que as empresas entendam que é necessário combater o desmatamento”. Leitão chama a atenção também para o fato dos Estados Unidos, nações europeias e China começaram a tratar de medidas de redução de impactos ao ambiente, enquanto o Brasil retrocede. Leia a entrevista completa do site Vida de Empresa

Na avaliação de vocês, o ESG no Brasil é muito centrado em carbono? Não deveria ter mais foco no social?
O conceito de ESG envolve três componentes que são indissociáveis: o ambiental, o social e o de governança. Isso é o que as três letras da sigla trazem para a preocupação das empresas e dos setores financeiros. Qualquer ação ou foco que privilegie um desses aspectos em detrimentos dos demais já estará, digamos assim, trabalhando contra o conceito que os três pontos enseja e permite que as empresas e o setor financeiro passem a ter uma atuação que responda a todo o desempenho econômico sem que isso traga e, nem de longe, signifique prejudicar a busca de uma lucratividade, que é essencial em uma atividade econômica, mas que isso passe a ser feito analisando exatamente os reflexos da atuação empresarial sobre o meio ambiente. Ao olhar para a questão social, temos que analisar o aspecto da desigualdade social. Em um país como o Brasil que é profundamente desigual, ainda mais agora neste momento, onde você começa a verificar em função do reflexo da pandemia que existe de forma mais acentuada um descolamento entre bons resultados econômicos e os indicadores de emprego. Por fim, temos o aspecto de governança.

Como está a governança ambiental no país?
O país chegou a mostrar esforço nesse sentido, criando o Ministério do Meio Ambiente e também secretarias estaduais e municipais para a área, além de um conjunto de leis ambientais que surgiram fazendo as exigências necessárias. No entanto, quando o país estava atingindo uma plenitude dessa governança, exatamente como fruto do trabalho que foi feito nos últimos 30 anos nesse sentido, tudo fica em risco. A conjuntura política atual e ação do governo, além da aprovação de um projeto de lei pela Câmara dos Deputados que torna praticamente 95% das atividades econômicas do país livres de qualquer obrigatoriedade de avaliação de impacto ambiental ou até mesmo de serem licenciadas. Tira-se a obrigatoriedade e colocasse a modalidade de licenciamento por adesão ou compromisso. Essa modalidade por adesão é um risco muito grande para as atividades econômicas, que depois vão ficar numa situação parecida ao que tínhamos no Brasil até o começo dos anos 1980 antes da lei 6938, que criou a política nacional de Meio Ambiente, que criou a exigência dos estudos de impacto ambiental. Portanto, temos aí um retrocesso de tudo que foi feito nos últimos 40 anos. Então, precisamos dizer que ESG se está falando sério, a interface e a interconexão sistêmica entre social, ambiental e governança é fundamental. Quem não cuidar dos três, não cuidou de nenhum.

Cientistas preveem, com a seca, recorde de queimadas. Como isso pode afetar ainda mais a imagem de empresas brasileiras?
Essa imagem já está seriamente afetada. Está se consolidando, cada vez mais, no mundo uma imagem que o Brasil está destruindo a governança ambiental, o sistema de proteção ao meio ambiente, retirando as equipes de fiscalização do campo, vulnerabilizando os direitos indígenas e das populações tradicionais da Amazônia. E, para um agronegócio que depende muito das exportações, como é o caso da soja e da carne, essa percepção de que o país não protege o meio ambiente e é conivente com a destruição da floresta amazônica, o que acaba por se refletir na mudança do clima que é uma preocupação central hoje nos Estados Unidos e na Europa, e que começa a ser também na China, irá afetar gradativamente os interesses do setor exportações do Brasil, em especial do agronegócio. Até porque começa-se a discutir na Europa um nível muito mais alto de restrições e taxação de produtos que são importados pelo continente para refletir aquilo que seria o conteúdo de emissão de gases de efeito estufa que cada produto traria. Ou seja, se foi feito com mais desmatamento, com mais emissão de gases de efeito estufa esse produto será sobretaxado e consequentemente terá seu preço majorado, ou seja, será mais caro exatamente para criar um fator de restrição. Então a questão ambiental não se confunde mais com mero protecionismo, é preciso que a gente deixe de alegar que isso é apenas uma questão para afetar as exportações brasileiras em função dos interesses de nossos competidores e entender que estas questões vieram para ficar e fazem parte da alfândega pela qual a gente precisa se acostumar a deixar nossos produtos serem inspecionados. Ou seja, meio ambiente é o item que a alfândega do mundo vai cobrar do Brasil. Quem não entender isso e não fizer isso vai perder mercado.

O senhor disse que cresce a visão ambiental na China…
É preciso criar a consciência que a China, que muitos do agronegócio no Brasil acham que nos bastará, gradativamente terá suas exigências ambientais. Isso já está começando a ocorrer e o Brasil precisa entender que na hora que o gigante asiático aderir aos mesmos padrões que já são hoje exigidos por Europa e Estados Unidos, nós estaremos absolutamente despreparados para mostrar que nossos produtos não carregam juntos um desmatamento e desrespeito aos direitos humanos. É hora do Brasil acordar antes que seja tarde e o sonho de termos um agronegócio que tudo nos proverá´pode se transformar num pesadelo imenso .

A crise hídrica pode levar a uma maior conscientização das empresas de agronegócio de que a seca pode ter relações com as mudanças climáticas?
Deveria, mas a julgar pelas últimas secas e pelo próprio apoio que muitas empresas do agronegócio têm dado às mudanças nas exigências do licenciamento ambiental, além do desmonte que está sendo realizado pelo governo, a gente não pode ter uma esperança de que o país finalmente acorde para o que a gente chama de crise hídrica ou emergência hídrica. Não é nada mais, nada menos, que as mudanças climáticas que chegaram e chegaram para valer. Isso pode ser constatado por dois fatos muito relevantes: primeiro que a série de secas que acontecia a cada dez anos está se tornando mais frequente e ocorrendo em um espaçamento muito menor. Segundo que estas secas, além de mais frequentes, estão com mais intensidade, ou seja, são secas mais severas. Você já verificou uma quebra de mais de 20% na safra do milho com gravíssimos prejuízos econômicos. É preciso que as empresas entendam que é necessário combater o desmatamento. O Brasil não precisa mais desmatar para produzir comida, temos mais de 90 milhões de hectares abertos que podem ser utilizados sem nenhuma dificuldade para garantir a expansão da produção agropecuária. Então se a gente tem áreas suficientes para continuar expandindo a produção, se não é mais necessário desmatar e se o desmatamento provoca essa espécie de bolo de ar quente bloqueando a entrada das chuvas da Amazônia, que abastecem as regiões produtoras do agronegócio, você tem isso associado ao fenômeno La Niña.

Como o Brasil deve chegar à COP de Glasgow? E as empresas brasileiras?
O Brasil chegará à COP de Glasgow profundamente desgastado. Isso em função das denúncias de que o país está desmontando a proteção do meio ambiente e que o próprio ministro do Meio Ambiente, que é indicado como negociador internacional do Brasil para o tema de clima, está envolvido em uma denuncia de facilitação de contrabando de madeira junto ao Supremo Tribunal Federal, feita pela própria Polícia Federal. Então a nossa credibilidade é zero neste sentido, pois o país está dando mostras de que está sendo conivente com o desmatamento. E as empresas brasileiras precisam se separar e mostrar que existe uma preocupação real com a proteção do meio ambiente e que elas vão fazer aquilo que lhes cabe fazer, por exemplo demonstrar a rastreabilidade de seus produtos, principalmente as que têm a ver com os efeitos da destruição da Amazônia. É preciso mostrar que um consumidor europeu, quando comprar um quilo de carne saída do Brasil, pode confiar que não trouxe junto o desmatamento e o sofrimento de povos indígenas e comunidades ribeirinhas. Já que o nosso governo não oferece a credibilidade necessária, as empresas têm de estar conscientes de que precisarão fazer a sua parte para se separar da tragédia reputacional do governo Bolsonaro na área ambiental.

O que mudou para as empresas brasileiras na pauta ambiental desde a posse de Biden?
A partir da realização da cúpula do clima, juntando países que são relevantes do ponto de vista econômico, como a China, países europeus e os EUA, ficou claro que há um maior alinhamento de expectativas e focos para aquilo que se dizia desde que as discussões de clima começaram. Por anos falou-se que os países estavam arrumando a casa e no Brasil dizia-se que eles não jogavam sério. Nós dizíamos que havia um jogo de aparência e que havia um jogo por trás dos bastidores. O Brasil acreditou que era um jogo de aparências. Quando China, países europeus e EUA passam a falar a mesma linguagem é muito significativo de que haverá uma mudança deste processo produtivo. E o Brasil ficou para trás, porque todo o avanço que precisava fazer na agricultura foi adiado, os financiamentos não estão exigindo mudanças de processos produtivos. Se é verdade que não precisamos mais desmatar para ampliar a produção, como diz a ministra Tereza Cristina, por quê continuamos a dar financiamento para novas áreas? Se o Brasil tivesse um país dentro dele chamado “pecuária”, ele, por si só, seria o vigésimo maior emissor de efeitos estufas, se igualando a Argentina e a Inglaterra. As empresas brasileiras precisam entender que não é possível ficarmos por trás do governo que faz todas as negociações e postergar as mudanças de nossos produtivos. Isso está tirando o país desta corrida de transformações produtivas que o mundo exige. Quando você vê o presidente americano anunciando que os EUA terão uma matriz elétrica 100% limpa nos próximos anos, dá uma ideia do esforço que está sendo feito.

O instituto fez um trabalho que relaciona financiamento a boas práticas ambientais, como vocês acreditam que isso deve evoluir no país?
A evolução disso passa pelo banco e pelo sistema financeiro em adotar realmente parâmetros para avaliar os impactos de seus financiamentos sobre o meio ambiente e as questões climáticas. Isso é uma reprodução do que se começa a fazer na Europa e nos EUA. Na França há um comitê de financiamento para avaliar até que ponto os bancos dão uma contribuição para não agravar o problema da mudança climática. Se dou um financiamento para quem vai recuperar uma área e pronto para restaurar a floresta e produzindo com técnicas modernas, isso é uma maneira muito prática de verificar como os financiamentos podem ajudar no tema ambiental. Os bancos e empresas do setor precisam mostrar claramente sua exposição ao risco climático. Essa neutralidade do portfólio é algo que o Banco Central possa dar a demonstração de que estamos acompanhando o que está sendo feito na Europa e nos EUA para a contribuição do sistema financeiro.

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