Por que a pandemia pode reforçar o apelo da moda sustentável

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Entre as inúmeras transformações que a crise do coronavírus vai impor à economia e à vida em sociedade, uma deve ser o reforço do apelo da moda sustentável. A indústria da moda é considerada uma das mais poluentes do mundo, sendo responsável por algo entre 8% e 10% das emissões de gases causadores do aquecimento global. Com a pandemia, mudanças significativas já têm ocorrido no segmento – e isso pode apontar caminhos para o futuro.

A Edited, empresa britânica de análise de dados sobre o varejo, identificou algumas das transformações que já estão sendo observadas no setor. A partir desse levantamento, a empresa criou uma lista com os cinco pontos em que a sustentabilidade ficará mais evidente no setor no mundo pós-coronavírus.

Veja as tendências:

1. Semanas de moda serão repensadas

A Men’s Fashion Week, prevista para ocorrer em Milão e Paris em junho, será transferida para a semana de desfiles de moda feminina, em setembro. No entanto, a depender da duração das medidas de isolamento social, a decisão ainda pode ser revista novamente.

As críticas às semanas europeias de moda têm crescido porque, segundo os críticos, elas têm pouca preocupação com a sustentabilidade; afinal, compradores e marcas voam para quatro cidades duas temporadas por ano. Segundo um estudo recente da Ordre, uma plataforma digital que atua na distribuição da indústria do luxo, as viagens dos participantes dos desfiles de moda de 2018 produziram 241 mil toneladas de CO2 , volume equivalente às emissões anuais de um país pequeno. Uma combinação do exposto forçou a indústria a reimaginar como deveria ser a Fashion Week.

Tóquio, Xangai e Moscou abraçaram a transformação digital, exibindo coleções e desfiles online ao vivo e em materiais pré-gravados. Com a covid-19 lançando luz sobre as mudanças climáticas e a sustentabilidade, isso pode desencadear uma revisão das semanas de moda também em outras praças. A Semana da Moda de Xangai mostrou resultados positivos: nas três primeiras horas de transmissão – em uma programação de desfiles e palestras que se estendeu por sete dias -, os acessos chegaram a 2,5 milhões.

2. A desaceleração do fast-fashion

O movimento que pedia mudanças na cultura da chamada fast-fashion – baseada em peças de vida útil curta, o que exige que os consumidores sempre precisem comprar novas – já vinha crescendo antes do surgimento do novo coronavírus. Mas, com a pandemia, esse apelo ganhou ainda mais corpo.

Em parte, porque se atestou que a parada das fábricas – de todos os setores, não apenas as de moda – melhorou sensivelmente a qualidade do ar em áreas industriais. Quando as fábricas chinesas precisaram interromper suas atividades no início do ano por causa da covid-19, as emissões de poluentes caíram quase 25%.

Mas a crise também chamou a atenção para os aspectos econômicos e sociais da cadeia de produção de roupas. Com o fechamento das lojas de redes de fast-fashion por causa do coronavírus, houve uma avalanche de cancelamento de pedidos, o que teve impacto sobre os empregos de 50 milhões de pessoas, especialmente em países como Bangladesh, Índia, Mianmar e Camboja.

Isso gerou movimentos como o da organização sem fins lucrativos Remake, que lançou a #PayUp, campanha para que as varejistas, em vez de cancelarem pedidos já feitos, pagassem pelas encomendas e reagendassem as entregas para quando os negócios forem retomados. Empresas como Inditex (dona da Zara), Marks & Spencer, Kiabi, PVH Corp. (de marcas como Tommy Hilfiger e Calvin Klein) e Target concordaram em cumprir seus compromissos de pagar os fornecedores por pedidos já em produção. Ao todo, essas encomendas somavam US$ 3 bilhões. Repensar a cadeia de fornecimento e as relações com fornecedores também é um aspecto da sustentabilidade – e está na ordem do dia.

3. Mudança nos hábitos de consumo

O aumento do desemprego, a queda da renda e a mudança de hábitos imposta pelo isolamento social devem levar a uma mudança nos hábitos de consumo. Para as marcas, essa é a hora de cultivar relacionamentos autênticos com seus clientes para criar engajamento e fidelidade.

Com as lojas físicas fechadas e entregas online atrasadas por causa dos contratempos gerados pela covid-19, os consumidores estão se adaptando vivendo com menos. O mantra “compre menos, compre melhor” deve ganhar força no atual cenário.

4. Maior conexão com a natureza

Na crise financeira global de 2008-2009, uma lição importante foi a reconexão com atividades ligadas à natureza adotada por muitos consumidores. No Reino Unido, as vendas de mochilas, mountain bikes e tênis de corrida tiveram crescimento de dois dígitos em 2008, segundo a Outdoor Industries Association. O isolamento das pessoas cria uma nova relação com a natureza, e isso deve reforçar o apelo do vestuário para atividades ao ar livre.

5. Reaproveitamento de sobras de tecido

Em todo o mundo, o coronavírus levou muitas redes varejistas a adaptarem suas manufaturas para que elas passassem a produzir itens de prevenção e combate à covid-19, como roupas hospitalares e máscaras cirúrgicas. Esse movimento levou as empresas a aproveitarem as sobras de tecido que acabariam sendo depositados em aterros sanitários.

Para além de item de prevenção, as máscaras cirúrgicas já têm se transformado também em um instrumento de identidade, usado por pessoas que querem se mostrar preocupadas com seu bem-estar e com os de que as cerca. Isso pode fazer da peça um acessório fashion de uso contínuo, e não apenas enquanto a pandemia perdurar.

Clique aqui e leia no Vida de Empresa histórias sobre como as companhias estão enfrentando o coronavírus.

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